Saturday, March 04, 2006

Casamatas Nucleares

Eu moro no mesmo bairro há 24 anos. Quando para cá me mudei, não haviam cercas, muros, separações entre as casas e entre estas e a rua. Tudo era uma grande comunidade, as crianças brincavam livremente como se tudo fosse um enorme e único pátio. Quanta coisa mudou nesses 24 anos, tudo mudou nesses 24 anos. Já não é mais o mesmo bairro. Hoje as os terrenos estão gradeados, altas grades, mais de dois metro e meio de altura, encimando a grade cercas eletrificadas, verdadeiros campos de concentração.

As crianças sumiram das ruas, as pessoas sumiram da frente das casas. Não é possível deixar um portão aberto, ou uma janela - mesmo atrás das grades que limitam o terreno - pelo imenso trânsito de pedintes, uma multidão de desvalidos que, minuto após minuto, um após o outro, batem palmas na frente da casa pedindo dinheiro ou algum alimento. As pessoas permanecem fechadas dentro de seus bunkers, sem aparecerem para ninguém.

Mesmo que você ajude um ou outro é impossível ajudar a todos. Na medida que você ajuda a um, este um avisa aos outros "que o morador da rua tal, número tal" está ajudando e forma-se uma verdadeira procissão de pedintes. Para alguns que você nega, porque muitas vezes não tem mesmo nada para oferecer, recebe ofensas como resposta, como se obrigado fosse a colaborar para minorar o sofrimento de todos.

Pago todos os meus tributos - o que é extremamente raro nesse país! - e muitas vezes, confesso, não tenho condições de auxiliar a todos. O governo, que é o primeiro responsável pela assistência social - e que recebe o dinheiro dos tributos -, é forte em publicidade, mas extremamente fraco em ações; prefere pagar juros estratosféricos aos banqueiros do que investir maciçamente no social. Mas quem sou eu para entender dessas coisas?

Enquanto isso vamos reforçando os nossos "bunkers". Fico só fazendo um exercício de imaginação, nessa progressão, daqui a 24 anos o que será necessário para nossa proteção? Casamatas nucleares?

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