Tuesday, November 11, 2008

Evolução

Estou evoluindo. Os sinais são tênues, quase imperceptíveis. Mas, em se tratando de mim, são marcos que não podem ser ignorados, detalhes importantes na trilha evolucionista da minha personalidade. Só quem me conhece há milênios é capaz de julgar a importância do fato.

Pequenos atos banais, coisas que passariam despercebidos na vida das chamadas pessoas normais. O último deles foi a troca da caneca em que tomo o meu café. Uma tradição secular, veja que era praticamente impossível me enquadrar numa foto em que não aparecessa ela, a velha caneca azul.

Um azul histórico, do tempo em que ela ainda era azul. Agora já era uma cor soviética, russa, uma mistura de tonalidades sem registro em nenhuma tabela dos matizes conhecidos. Pior, ela não tinha a nobreza e a eternidade das cerâmicas, era de plástico, revestida desse material sobre alguma coisa que lhe conferia a propriedade de ser térmica.

E isso ela sempre manteve, alterou a cor, é verdade, mas sempre se manteve térmica, quente. Uma longa sucessão de dolorosas queimaduras na língua comprovam o fato. Ela nunca negou fogo, literalmente. Pois hoje, depois de muito considerar sob a permanência ou não da velha russa ao meu lado, com uma dor no coração, finalmente me divorciei dela.

Nunca mais seremos vistos num mesmo enquadramento. Nem sei qual o destino que a velha caneca terá nesse mundo descartável de plásticos indestrutíveis. Talvez vire bebedouro de pardais. Talvez um depósito de lápis e canetas, ou ainda um destino menos nobre, melhor nem pensar. A fila anda... 

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